
Festivais de fotografia acontecem todos os meses ao redor do mundo. Segundo a lista da Foto Magazine, divulgada em janeiro, neste ano eles seriam 145 por todo o globo – de mostras pequenas a renomados festivais como o Les Encontrees de Arles, que dura mais de um mês e acontece na França anualmente. No Brasil, o Paraty em Foco foi sem duvidas o pioneiro desta onda e se consolida em seu décimo aniversário como o maior do País.
Os festivais são, em geral, pautados pela ordem do encontro e da troca física. O quando se concretiza uma rede de relações virtuais que já existe. Eles existem para provocar esse encontro.
Segundo Lorival Alves de Souza, citado pelo teórico da imagem, Agnaldo Farias: “O processo de aprendizado da arte é um processo de frequentação”. Arte como vivência física e real. E isso é o que houve de mais interessante acontecendo espontaneamente pelas ruas da colonial cidade de Paraty, no litoral fluminense, que tem uma veia aberta para a troca cultural, pois além deste festival, recebe e abriga a Flip (Festival de Literatura), o MIMO (Festival de Música de Olinda), entre outros encontros.

A possibilidade de se frequentar obras, artistas, teóricos, críticos em carne e osso, que saem do nosso imaginário virtual para o campo real já faz com que a troca aconteça.
Durante 4 dias a cidade recebeu, segundo a coordenação do Paraty em Foco, 650 estudantes matriculados em workshops e cerca de 2 mil visitantes. Com uma estrutura de espaço bem condensada, os workshops, mesas de debates e palestras aconteciam muito perto uma da outra, sendo as mesas abertas ao público em geral.
A fotografia no Brasil vem, nos últimos anos, dando um passo para uma discussão mais aprofundada e uma reflexão incisiva, seguindo os passos da Europa e EUA.
O Paraty em foco visa ser um ambiente de formação muito mais do que um evento festivo, segundo o seu diretor, Iatã Cannabrava. Neste ano, o número de estudantes inscritos nos workshops triplicou. “Tirar o caráter de evento do festival foi uma de nossas ideias nessa edição. Ser somente festa não é suficiente. Nossa função aqui é a de gerar uma reflexão mais profunda da fotografia contemporânea, no Brasil e no mundo”. No entanto, a ausência da catarse nas ruas e de exposições mais bem entrosadas com a cidade, fez o encontro ficar aquém das expectativas.
Percebe-se pela curadoria da convocatória deste ano a vontade de abarcar um cenário mais amplo e internacional da fotografia contemporânea. Foram recebidas 1.225 inscrições, de fotógrafos de 26 países. Destes, 350 foram selecionados para uma galeria online e cerca de 30 passaram pela curadoria do catalão Claudi Carreras, que se despede da função depois de 3 anos em que tomou a frente. É dele o conceito de modelo expositivo tomar as praças e praias da cidade com cubos gigantes de metal e impressões em lona – o que chama a atenção de qualquer um, mas não necessariamente integra a fotografia com a cidade portuguesa. Falta a apropriação de igrejas, cemitérios, lojas, casarios. Falta trazer o festival para mais perto da população e da cidade em si, não somente no âmbito prático – mas no simbólico.

Completando 10 anos, o festival se consolida e se prepara para abranger novas parcerias, criando um leilão do Paraty em São Paulo. A expectativa é que a próxima edição do Paraty em Foco tome mais intimamente, de dentro para fora, a cidade como um todo. A frieza e escassez das exposições deste ano, se contrapõem ao grande numero de mesas de debate entre artistas, curadores e pensadores abertas ao público, no meio da praça da Matriz, sem a necessidade de retirada de senha, como nos anos anteriores, o que aproximou e tornou menos formal o modelo.
Todos os anos o festival traz ao menos um grande nome da fotografia internacional para a cidade. Neste foram dois: o fotojornalista norte americano, membro da agencia Magnum, David Alan Harvey e um dos maiores nomes da fotografia japonesa contemporânea, Rinko Kawauchi. Grandes nomes não garantem, no entanto, grandes encontros.
O que se viu no resultado da gigante convocatória de fotógrafos emergentes foi, segundo Cannabrava, a repetição do tema da natureza, a relação do homem com ela. “O que é a fotografia além de tentarmos olhar a si próprio e para a natureza que nos cerca? Mas, para mim, o que fica deste processo, além da temática autorreferente, é a consolidação da fotografia, a cor. O que cada fotógrafo contemporâneo busca hoje é encontrar a sua palheta de cor.”
A cor como linguagem individual de cada fotógrafo começou com o inconfundível norte americano do vermelho e azul saturados, William Eggleston, que marcou o inicio do uso da cor como linguagem contundente em meados dos anos 60.
David Alan Harvey e Rinko Kawauchi também levaram suas imagens um tom inconfundível. Para Cannabrava, Harvey é um homem que trabalha a golpes de luz”. O fotojornalista, ao lado de Martin Parr e Alec Soth, é dos poucos membros da agência Magnum que se destaca pelo uso cor. Mesmo que em seu discurso demonstre um certo desprezo à ela, tendo dito que a vê como mero artefato na fotografia, Harvey sabe muito bem de criar sua palheta saturada e única.
Já a fotógrafa japonesa, um dos grandes nome da cena contemporânea de seu país, apresentou suas delicadas imagens, uma palheta mais quieta e branda. “Rinko nos dá pinceladas de azul”, analisa Iatã. Sua palheta de cor é bastante definida: tons suaves, desaturados lhe trazem toda a sutilidade e delicadeza de um trabalho que é muito mais emocional do que conceitual, e passa longe do noticioso e humano de Harvey. Rinko, capta luz e cor em instantes efêmeros da natureza, com uma ordem caótica. Cores nos traduzem conceitos, nos relembram lugares, tanto Rinko como Harvey estampam em suas palhetas suas origens; fica claro que ele é norte americano, ela, japonesa.
A fotógrafa Paulista Sofia Borges, que despontou no mundo da fotografia de arte como um nome recorrente, apresentou seu estudo fotográfico uma palheta arqueológica, instiga pelo tom misterioso.

João Castilho, ganhador da bolsa Zum de Fotografia pelo IMS deste ano, no seu novo projeto, ZOO, consolida um tom quente e aconchegante. Suas impressionantes imagens de animais selvagens deslocados ao ambiente doméstico trazem consigo cores fortes embora não muito saturadas, em uma linguagem consistente.

Para uma discussão da linguagem e da imagem mais profunda, o evento contou com a presença do teórico da imagem, Agnaldo Farias, do artista brasileiro radicado na Alemanha, Alex Fleming, entre outros.
O festival, no entanto, ainda oscila entre dois tipos de público: um que acredita na ideia da fotografia apenas como técnica e registro; e outro mais engajado na ideia de construção e análise da linguagem hoje.
Este ano o Festival trouxe para dentro de sua programação oficial o jovem coletivo mineiro Erro 99, que até o ano passado contestavam o formato do festival e das “santidades” instauradas no mundo da fotografia e da arte. Criaram o Queimão de Fotografias, em que se não leiloadas a preços módicos, as imagens são escolhidas para a fogueira e queimadas em praça pública. Este ano aconteceu, mas devido a institucionalização que veio com o reconhecimento de havia sentido na zona, o Queimão teve hora para terminar e regras de conduta.

É importante ter dentro de um festival coisas que lhe contestam, e talvez a formula não seja a de institucionalizá-las, mas de deixá-las existir livremente. Faltou a faísca que outrora fazia pairar sobre o acontecimento fotográfico mais importante do País.
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