O morador de rua Francisco Erasmo Rodrigues de Lima foi assassinado enquanto tentava libertar uma refém de seu sequestrador, também morto durante um tiroteio na Praça da Sé, em São Paulo, em 4 de setembro de 2015. Nas redes sociais, um comentário chamou a minha atenção: “Era só mais um mendigo. Pelo menos, limparam as ruas!”
Essa abordagem higienista, ainda recorrente no País, é uma herança do século 19. Na época, a população da capital paulista aumentava vertiginosamente com o desenvolvimento da indústria e a chegada dos imigrantes. E assim a paisagem urbana passava a integrar também desempregados, mendigos, prostitutas, sifilíticos, alcoólatras, ex-escravos, pessoas com deficiência física e doentes mentais.
Preocupada em evitar a degradação moral e a disseminação do que considerava “doenças sociais”, burguesia e ciência idealizaram um local distante da capital para receber essa massa de excluídos tida como improdutiva. Em 18 de maio de 1898, o psiquiatra Francisco Franco da Rocha inaugurava o Hospital Psiquiátrico do Juquery, em São Paulo, com 800 leitos.
No início dos anos 1970, o Juquery abrigava quase o dobro das 9.000 pessoas que tinha condição de comportar. O livro O Capa-Branca (Ed. Terceiro Nome, 2014), que escrevi a quatro mãos com Walter Farias, ex-atendente de enfermagem que se tornou paciente do Juquery, resgata as memórias do lugar, que foi um dos maiores hospitais psiquiátricos do Brasil.
Walter testemunhou a chegada de indivíduos que perdiam a identidade e o pouco que lhes restava de dignidade. Com a cabeça raspada, dentes arrancados e vestidos com o uniforme de paciente (calça azul, camisa de algodão cru e um casaco preto de pano grosso), perambulavam pelos pátios das clínicas em meio à massa de pacientes nus ou em farrapos.
Além da medicação pesada, os pacientes eram amarrados em camisas de força, submetidos a banhos gelados e passavam pelas temidas sessões de eletrochoque. Os tratamentos para a loucura que, hoje se sabe, serviam apenas para coagir e torturar os pacientes, ainda incluíam injeções do parasita da malária, aplicação de altas doses de insulina para provocar o coma e a lobotomia, que retirava pedaços do cérebro.
Depois de sua transferência para o Manicômio Judiciário, Walter passou a conviver com pacientes que cometeram crimes e, com a sanidade abalada, acabaram internados.
Ele conseguiu sobreviver às internações, ainda toma medicamentos e leva uma vida relativamente normal. Juntos, temos dado palestras sobre o que ele testemunhou e rememora no livro. Mas muitos pacientes morreram abandonados. Tinham como destino covas sem identificação no cemitério do próprio Juquery. A sogra dele, Ana Luiza da Silva, provavelmente se juntou a esses mortos. Depois de algumas poucas visitas, ninguém mais a viu e não se sabe do paradeiro dela.
A busca pelas memórias de Ana Luiza e de tantos outros pacientes se inviabilizou em 2005, quando um incêndio atingiu o setor administrativo do Juquery. O fogo destruiu o prédio tombado como patrimônio histórico, sua biblioteca e os registros de internação. Cada memória consumida pelo fogo representa um apelo para que o mundo se torne um lugar menos intolerante.
Atualmente, 151 pacientes ainda vivem no Juquery, que passa por um processo de desativação que já dura uma década. Segundo a Secretaria de Saúde de São Paulo, essas pessoas estão “internadas há mais de 30 anos e não possuem retaguarda para reinserção social, devido à ausência dos familiares”.
Vários pacientes do Juquery e de outros hospitais psiquiátricos espalhados pelo País já foram transferidos para residenciais terapêuticos. No entanto, ainda não há políticas eficientes para cumprir as diretrizes da Reforma Antimanicomial (Lei 10.216/01), que propõe a reformulação do modelo assistencial em saúde mental e a consequente reorganização dos serviços, priorizando o atendimento extra-hospitalar e as equipes multiprofissionais.
Trabalhadores da área da saúde — como enfermeiros, médicos, psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais, estão comprometidos com essa causa. Mas não bastam as leis e a boa vontade desses profissionais.
O manicômio, infelizmente, é visto como uma realidade por muita gente que não sabe a história das instituições psiquiátricas ou não teve pessoas próximas internadas. Isso fortalece ainda mais a necessidade de que os fatos ocorridos ali e em outros manicômios sejam cada vez mais conhecidos e que a discussão sobre a inserção do doente mental na sociedade seja amplificada. Internar a força ou eliminar quem desestabiliza o bem-estar social e degrada a paisagem urbana parece ser, ainda, mais simples do que compreender a individualidade e a pluralidade de cada sujeito.
Os ensinamentos da memória
A documentação que conta a história das atrocidades praticadas contra os pacientes psiquiátricos no Brasil precisa ser reunida, preservada e conhecida. Mas pouco tem sido feito.
Uma sociedade sem memória é como uma viagem sem mapa. É muito fácil se perder. Infelizmente, temos feito pouco nessa área. Com o incêndio do Juquery, em 2005, muito se perdeu. O que sobrou dos registros de pacientes atualmente está guardado no Museu Osório César, em Franco da Rocha. Fechado desde 2006 e atualmente em reforma para modernização, lá se encontram obras de arte dos pacientes do velho hospital e a carta escrita por Freud ao médico Osório César, que por muito tempo trabalhou lá.
Outro centro de preservação é o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. Criado em 1952 pela psiquiatra Nise da Silveira, reúne obras dos pacientes do serviço de terapia ocupacional implantado pela médica no Centro Psiquiátrico Pedro II em oposição aos tratamentos praticados em 1940, como a lobotomia e a insulinoterapia. E há também alguns poucos livros, entre os quais se insere O Capa-Branca, que expõe as feridas abertas do tratamento dado aos pacientes psiquiátricos. O título agora faz parte dos acervos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos.
É o que temos no momento. Mas não podemos perder de vista que um povo sem memória é como uma viagem sem mapa. Por que não aprender com o exemplo dado pelos alemães? A capital cultural Berlim abriga o Memorial do Holocausto. É um lugar magnífico, visitado por milhares de pessoas todos os anos, para ajudar a humanidade a não se esquecer do extermínio de judeus, poloneses, ciganos, eslavos, homossexuais, testemunhas de Jeová, pessoas com deficiência e problemas mentais, maçons, negros ou quaisquer outros antagonistas do nazismo. Uma lógica não muito diferente daquela aplicada na concepção do Juquery.
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