A vida do escritor americano Charles Bukowski (1920-1994) mudou para sempre desde o dia em que pegou na biblioteca pública de Los Angeles e leu “Pergunte ao Pó”, de John Fante (1909-1983), cuja primeira edição saiu em 1939. Bukowski “era um jovem, passando fome, bebendo e tentando ser escritor”, conforme escreveu no prefácio de uma reedição do livro, em 1979. Daí sua identificação imediata com a história de Arturo Bandini, um rapaz de aproximadamente 20 anos de idade, perdido e sozinho na cidade grande, que passa a maior parte do tempo faminto e em busca de algo para comer. Ao mesmo tempo, acredita cegamente que o sucesso o acolherá no colo como escritor em pouco tempo.
Em sua rotina torturante, que deixa o leitor aflito por causa de sua impotência em ajudá-lo, Bandini mora em um hotel barato de Los Angeles. Mesmo de barriga vazia, continua a escrever e a mandar seus contos para jornais e revistas de segunda linha, enquanto espera a chegada de um cheque de alguns dólares pelos Correios, para pagar suas despesas mais urgentes. O entusiasmo juvenil, entretanto, não evita que sofra com a realidade da vida e a dureza de ser pobre – situações em que faz uma reflexão de sua vida e do modo como precisa encarar o mundo. Nessa busca, ele se envolve com garçonete Camilla Lopez, com quem vive uma relação intensa de amor e ódio que, aos poucos, parece levá-lo à loucura. Segundo Bukowski, nada do que leu nessa época tinha a ver com ele “ou com as ruas ou com as pessoas à minha volta”. Parecia, prosseguiu o escritor, que todo mundo estava brincando de jogar com as palavras, “que aqueles que não diziam quase nada eram considerados escritores excelentes”.
Para o autor de “Cartas na Rua”, os escritos desses autores misturavam sutileza, artesanato e forma e eram lidos, ensinados, inferidos e esquecidos. “Era um esquema confortável, uma Cultura da Palavra, muito malandra e cheia de nove-horas.” Assim, precisava voltar aos escritores russos do século XIX para encontrar alguma ginga, alguma paixão. Até que uma magia aconteceu. “Um dia, peguei um livro, abri e estava lá. Parei por um momento, lendo. Então, como alguém que achou ouro no lixo, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam fáceis pela página, havia uma corrente. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra que nem ela.” Em sua opinião, humor e dor estavam misturados em uma esplêndida simplicidade. “Começar aquele livro foi um selvagem e enorme milagre para mim.” A obra-prima de Fante só saiu no Brasil em 1984, com tradução do poeta e ensaísta Paulo Leminski. Recentemente, ganhou nova edição pela José Olympio com a maioria dos seus livros.
Leminski definiu “Pergunte ao Pó” como o “retrato do artista quando jovem e tolo o bastante para se julgar o melhor escritor do mundo, ‘Ask The Dust’ abre um movimento complexo no interior do seu processo. Afinal, é a história das desventuras de alguém querendo ser um grande escritor: um relato sobre o próprio escrever, desvelando seu fazimento. Ao escrever Ask The Dust, esse alguém o consegue: é uma Double fantasy, uma dúplice ficção, Fante/Bandini, Bandini/Fante”. Mais adiante, em sua apresentação da obra, ele acrescentou: “Fante é um pícaro, ‘Ask The Dusk’, um texto picarescamente entre a prosa e a poesia, perigosamente pênsil entre a vida e o signo”.
Fante escrevia com as tripas e o coração, de acordo com termos ditos por Bukowski. Claramente influenciado por “Fome”, do prêmio Nobel Knut Hamsun (1859-1952), “Pergunte ao Pó” é, essencialmente, um livro de grande personagem, daqueles que não precisam de situações fora do normal para carregar uma história, abrilhantá-la e se tornar inesquecível na imaginação do leitor. Do mesmo modo que os personagens de John dos Passos (1896-1970) retratou o esforço de tipos miseráveis para construir o sonho americano na trilogia, iniciada com “Paralelo 42”, Bandini era um ítalo-americano amargo que cresceu em plena recessão americana, e tenta levar a vida empregado como operário em fábricas até optar pela literatura. Ele exemplifica a falta de perspectiva do pós-guerra e os efeitos da crise de 1929, em suas desventuras vividas na década seguinte.
Semiautobiográfico, curiosamente, “Pergunte ao Pó” é o terceiro livro de Fante com Arturo Bandini. Pela ordem, ele escreveu “Rumo a Los Angeles” (que permaneceu inédito até 1985, quando o autor já tinha falecido), “Espere a Primavera”, Bandini (1938), “Pergunte ao Pó” (1939) e, finalmente, “Sonhos de Bunker Hill” (1982), que foi ditado à sua esposa, Joyce, no final da vida, quando estava cego, por causa da diabetes. Fante também escreveu diversos outros livros de contos e roteiros, como a trama do filme “Um Casal em Apuros” (“Full of Life”), de 1957, baseado no livro homônimo de sua autoria, publicado em 1952.
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